
Montagem IA
A decisão da Justiça do Piauí de suspender o show do DJ Alok em Teresina, ainda que possa ser revertida a qualquer momento, já deixou um efeito que vai além do evento em si: escancarou contradições difíceis de ignorar.
Desde que o espetáculo foi anunciado, na última quinta-feira, o que se viu foi uma divisão clara. De um lado, questionamentos sobre o custo milionário do evento. De outro, uma enxurrada de publicações nas redes sociais explorando — sem qualquer pudor — as imagens e a estética do show como ferramenta de autopromoção.
E aqui está o ponto central.
Enquanto parte da sociedade questionava o uso de aproximadamente R$ 1,8 milhão em recursos públicos, muitos dos que deveriam liderar esse debate preferiram outra postura: aproveitar o brilho do evento. Autoridades públicas, figuras políticas e agentes institucionais passaram a utilizar imagens, montagens e elementos visuais do espetáculo em seus perfis pessoais, numa tentativa evidente de associação com o sucesso e a grandiosidade do projeto.
O problema não é gostar de evento. O problema é o silêncio seletivo.
Essas mesmas figuras, que se beneficiaram da estética e da visibilidade do show, pouco — ou nada — disseram sobre o impacto desse investimento nos cofres públicos. Nenhuma ponderação consistente, nenhum questionamento proporcional ao tamanho do gasto. Apenas a conveniência do momento.
A decisão do juiz Litelton Vieira de Oliveira, da 2ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública, vai justamente na direção oposta. Ao determinar a suspensão do evento, o magistrado apontou o “risco de dano ao erário” e classificou como desproporcional o investimento em um espetáculo de curta duração diante de demandas urgentes em áreas essenciais como saúde, educação e segurança.
Além disso, a decisão levanta outro ponto sensível: a possível falta de transparência na origem dos recursos utilizados.
Enquanto isso, a Kalor Produções, responsável pela organização, sustenta que todas as etapas do projeto seguem critérios técnicos e legais, defendendo o evento como impulsionador do turismo e da economia local. A empresa já anunciou que irá recorrer da decisão.
O Governo do Piauí, por sua vez, aparece no centro de um debate que não é novo: até que ponto o investimento em grandes eventos se justifica diante de carências estruturais históricas?
O espetáculo “Aurea Tour”, com sua proposta de unir música eletrônica, tecnologia e experiências imersivas, é, sem dúvida, grandioso. Mas o que está em jogo não é o show — é o contexto.
No fim, a maior lição não está na suspensão judicial, nem na possível realização do evento.
Ela está no comportamento de quem deveria exercer vigilância sobre o uso dos recursos públicos, mas preferiu atuar como plateia — ou pior, como beneficiário indireto da vitrine.
Porque, quando a crítica se cala e a conveniência fala mais alto, o problema deixa de ser o show.
E passa a ser quem aplaude — mesmo quando deveria questionar.
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